Quem foi Sebastião Salgado e por que sua obra importa tanto?
Sebastião Salgado não foi apenas um fotógrafo. Ele foi uma consciência. Nascido em Aimorés, Minas Gerais, em 8 de fevereiro de 1944, Salgado dedicou décadas da sua vida a registrar com maestria e sensibilidade as feridas e as belezas da humanidade e da Terra. Quando faleceu em 23 de maio de 2025, o mundo perdeu um dos seus mais potentes olhos — mas não sua mensagem.
Ao longo de sua carreira, ele percorreu mais de 100 países, fotografando desde migrações forçadas, trabalhadores braçais e tribos isoladas, até florestas ameaçadas e paisagens intocadas. Obras como Trabalhadores, Êxodos e Gênesis não são apenas livros de fotografia: são testemunhos históricos e poéticos do que somos — e do que estamos perdendo.
O que Sebastião Salgado queria nos dizer sobre o planeta?
Em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais, Salgado deixa uma mensagem que hoje ecoa como testamento. Ele não faz uma denúncia ativista. Ele lança um apelo existencial:
“Não é um problema de ser ativista, é um problema de ter uma consciência de sobrevivência.”
Essa fala resume muito do que ele sempre buscou mostrar com suas imagens. Para ele, o problema ambiental não era uma pauta ideológica. Era uma questão de vida ou morte. Em tempos de aquecimento global descontrolado, eventos extremos cada vez mais frequentes, desertificação acelerada e perda de biodiversidade, Salgado nos alertava: estamos nos afastando da Terra como se fôssemos “aliens” — e isso pode ser fatal.
Por que estamos nos tornando “aliens no nosso próprio planeta”?
Ao afirmar que “vivemos quase que aliens no nosso planeta”, Salgado faz uma crítica direta à forma como a urbanização moldou nosso estilo de vida. Segundo dados da ONU, em 2023, mais de 56% da população mundial vivia em áreas urbanas. Esse número não para de crescer. Com isso, muitos de nós deixamos de ter qualquer conexão prática com a natureza. Não plantamos. Não pescamos. Não conhecemos os ciclos da água, do solo ou das estações.
O resultado disso? Perdemos a noção de pertencimento. Nos sentimos separados do meio ambiente, quando na verdade fazemos parte dele.
Quais são as consequências desse distanciamento?
Salgado alertava para sinais visíveis: “secas que nunca existiram”, “tempestades se formando de maneira incrível”, “águas subindo”. Todos esses fenômenos estão sendo registrados cientificamente.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostrou em seu último relatório (2023) que:
- A frequência de eventos extremos aumentou 70% nos últimos 50 anos.
- O nível do mar subiu cerca de 20 cm desde 1900 — e pode subir até 1 metro até 2100, caso não haja contenção nas emissões.
- Mais de 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, segundo a ONU.
Esses dados corroboram a fala de Salgado. Estamos perdendo o equilíbrio que sustenta a vida.
Como o legado de Salgado pode nos inspirar a agir?
Ao longo de sua vida, Sebastião Salgado não apenas fotografou. Ele também plantou. Literalmente. Junto com sua esposa, Lélia Wanick Salgado, ele fundou o Instituto Terra, que desde 1998 já recuperou mais de 600 hectares de Mata Atlântica no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Foram mais de 2 milhões de árvores plantadas.
Essa ação nos mostra que é possível fazer diferente. Salgado não pregava a culpa. Ele promovia o pertencimento e o reencontro. Ele dizia:
“Nós precisamos, juntos, trabalhar na direção de reduzir essa taxa acelerada de aquecimento, de reconstituir a biodiversidade.”
Ou seja, cada pessoa tem um papel. Não se trata de voltar a viver em cavernas, como ele mesmo dizia. Mas de restabelecer uma conexão espiritual e prática com a Terra.
O que podemos fazer para “retornar ao planeta”?
Salgado convoca, sobretudo, os jovens. Mas a mensagem vale para todos:
“A gente volta a amando a terra, a gente volta a amando o planeta.”
Esse retorno pode se manifestar em atitudes cotidianas, como:
- Reduzir o consumo de produtos de alto impacto ambiental.
- Apoiar projetos de reflorestamento e proteção da biodiversidade.
- Pressionar governos e empresas a adotarem políticas sustentáveis.
- Estudar, conhecer e ensinar sobre ecologia, clima e meio ambiente.
- Buscar mais contato com a natureza: parques, trilhas, hortas comunitárias.
O mais importante é sair da apatia. Não é preciso ser um “ativista”, como ele dizia. É preciso ser alguém que deseja continuar vivendo num planeta habitável.
Qual é o impacto emocional da obra de Salgado?
Além do impacto visual, a obra de Salgado mexe com o coração. Ele captava dor, sim, mas também beleza, esperança e resistência. Seus retratos não eram sobre vítimas, mas sobre dignidade.
Ao apresentar indígenas, migrantes, agricultores ou paisagens remotas, ele restaurava algo essencial: o sentido de pertencimento ao mundo. E é exatamente esse sentimento que precisamos recuperar para ter forças para agir frente à crise climática.
Como a arte pode ajudar na luta ambiental?
A arte, como dizia Salgado com sua câmera, pode ser um poderoso instrumento de transformação. Ela toca onde dados frios não alcançam. Ela emociona. Ela engaja. E, acima de tudo, ela nos lembra que estamos todos conectados.
Salgado transformava fotografias em pontes entre mundos. Entre floresta e cidade. Entre dor e empatia. Entre passado e futuro. Seu trabalho pode e deve continuar sendo usado para inspirar educação ambiental, políticas públicas e ação social.
Qual é o legado de Sebastião Salgado?
Mais do que fotografias premiadas ou exposições memoráveis, o verdadeiro legado de Salgado é uma convocação: retornar ao planeta. Voltar a sentir, proteger e amar a Terra como extensão de nós mesmos.
Ele viveu esse chamado. Ele plantou árvores. Ele moveu corações com imagens. E agora, com sua partida, cabe a nós manter essa chama acesa.
Conclusão: Por que precisamos ouvir Salgado agora mais do que nunca?
A fala de Sebastião Salgado, registrada naquele breve vídeo, é uma bússola para tempos confusos. Em meio à polarização política, à desinformação e ao consumismo desenfreado, ele nos oferece algo simples e profundo: consciência de sobrevivência.
A crise climática não é um tema de nicho. É o assunto central do nosso tempo. E como ele mesmo dizia, se cruzarmos o ponto de não retorno, não haverá mais floresta, civilização ou poesia.
Homenagear Salgado é mais do que lembrar sua obra. É responder ao seu chamado. É sair do isolamento. É devolver à Terra o cuidado que sempre nos ofereceu.
Voltar ao planeta, como ele propôs, é voltar a nós mesmos.