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Ecovilas – Sobre sustentabilidade e mão de obra

Construções, mão de obra e sustentabilidade em ecovilas

No mundo capitalista e pretensamente democrático onde vivemos, muitos trabalham duro ganhando pouco, para que poucos tenham recursos e se divirtam gastando muito.

Uma sociedade alternativa não pode repetir esse modelo incompatível com a auto-sustentabilidade de uma forma alternativa de vida.

Nossa educação nos prepara para o ter e o pensar e muito pouco para o ser e o fazer.

As tecnologias de construção alternativas e tradicionais estão nas mãos de homens simples que moram nas zonas rurais.

A Ecovila Viver Simples demorou muito para perceber que o conhecimento que precisávamos estava bem ali, no próprio local de nossas construções com os empreiteiros tradicionais locais.

Durante a construção de nossa primeira etapa, tivemos a oportunidade de vivenciar a sabedoria natural dos homens da terra que sempre ajudaram seus pais e avós a construírem de uma forma alternativa!

Até descobrirmos isso, tivemos uma série de revezes com técnicos cheios de idéias de como a natureza se comporta, e pouca disposição em fazer o que queriam ensinar.

No meu entender, uma ecovila é única, e seus processos de construção devem nascer da própria terra, do seu clima e sua localização geográfica, e esse processo não acontece em mesas de reuniões com técnicos urbanos, mesmo os formados em bio-construção, quando tentam impor conhecimentos padronizados a algo tão vivo e mutante!

Envolver empreiteiros locais e participar pessoalmente dessa construção traz benefícios econômicos e sociais para a região, alem de promover uma recuperação de uma tecnologia que de outra forma seria esquecida e desapreciada.

Temos ainda um outro desafio pela frente; o que vamos fazer com os serviços necessários ao funcionamento diário de uma ecovila?

Quem fará os trabalhos necessários para o plantio, a reciclagem, a limpeza e manutenção funcional de toda uma ecovila??

Na fase final da primeira etapa da Viver Simples estamos nos reunindo para tratar disso.

Uma coisa é certa; não vamos ter empregados.

A relação patrão empregado é muito contaminada, e está se disseminando mesmo nos meios das comunidades tradicionais com as de Morro Grande
no sul de Minas, onde está situada nossa ecovila.

Ali os proprietários de terra, mesmo os analfabetos e simples, empregam os mais desocupados em seus serviços de capinagem, plantio e
cuidados com o gado.

A economia solidária tradicional foi perdida.

Pretendemos testar algum sistema de cooperativa, usando como modelo a relação solidária e
natural que existe entre as plantas amigas.

Esse modelo natural de solidariedade vegetal, onde uma planta de uma determinada espécie ajuda a outra a crescer, dando sombra e suporte a uma
outra maior até o seu pleno desenvolvimento, poderá ser uma inspiração muito útil.

Fundadores, voluntários e amigos, devem se inserir nessas atividades e acreditamos que poderemos reconstruir uma sociedade mais cooperativa onde todos trabalham e todos ganham sem a necessidade de vínculos empregatícios.

Um sistema legal simples de Comodato, muito parecido com o sistema de troca, deve ser testado, e muitos outros, até chegarmos a um que funcione.

No sistema de Comodato, a necessidade de um pode ser acoplada a necessidade de outro, e assim todos ganham.

Esse sistema tem sido usado na Bahia, pelos cacauricultores, que com a crise da vassoura de bruxa não puderam mais arcar com as pesadas quantias do vínculo empregatício.

Seu funcionamento é muito simples; o cacau e outras culturas mais demoradas, coexistem com plantios de curta duração, mais utilizados nas comunidades agrícolas tradicionais.

O agricultor e alguns amigos se unem em uma associação, plantam suas necessidades básicas de alimentação nas terras do proprietário, e cuidam em troca das plantas com tempos mais demorados de colheita, que ficam para o proprietário das terras.

Esse modelo pode ser aplicado como modelo alternativo desde que ambos, agricultores e proprietários da terra, trabalhem juntos.

Imagino para nosso futuro, uma grande cooperativa de produtores orgânicos, a ecovila entre eles, plantando, tirando da terra sua alimentação e recursos.

Todos seriam auto sustentáveis no que precisam para comer, e essa cooperativa venderia o que a natureza gerou a mais, comercializando essa produção extra e gerando melhoramentos para todos!

No trabalho de funcionamento da cozinha e das unidades de acomodação de visitantes, a Viver Simples procurou resolver essa questão tornando cada morador proprietário de dois quartos.

Assim, eles mesmos se responsabilizam pelo funcionamento perfeito de cada unidade.

Nossa cozinha pode funcionar com um revezamento dos fundadores que são bons cozinheiros.

Os participantes desses eventos, podem ajudar como voluntários nas tarefas de funcionamento desse espaço, cuidando das atividades necessárias em troca do valor do curso.

Esse sistema é muito utilizado nas comunidades que visitei no estrangeiro.

O importante é nos manter longe dos vínculos empregatícios e das relações viciosas entre empregados e patrões.

Cooperação e trabalho solidário trazem sempre bons frutos e sucesso!

Gente que trabalha, tem pouco tempo para conflitos e divergências.

Um corpo cansado terá sempre um enorme prazer quando estiver descansando.

Uma pessoa sedentária terá sempre uma mente complicada e um emocional desequilibrado, procurando desavenças para encher sua vida
cheia de tédio.

Ely Britto
Idealizadora da Ecovila Viver Simples
Instrutora Sênior de Alquimia Interna Taoista
Pesquisadora do I Ching

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